Qual o futuro da tecnologia blockchain?

29 mar 2017

Há um ano, algumas pessoas, tanto verdadeiros entusiastas quanto fraudadores, começaram a pregar a supermacia da Blockchain. Tudo mudará, dizia o Culto da Blockchain. A tecnologia prevista por eles permitiria transações perfeitas e transparência graças aos registros. Sistemas de pagamento tradicionais seriam insignificantes. Bancos centrais passariam por profundas transformações.

Esqueça sobre transações por um segundo – a blockchain foi pensada para tornar diversas outras coisas obsoletas. Por exemplo -os fanáticos disseram- graças a blockchain não precisaremos autenticar documentos e dados GPS poderiam confirmar entregas, assim pagamentos seriam confirmados automaticamente quando um item fosse entregue. Basicamente, para consertar as imperfeições do mundo, adicione blockchain.

Infelizmente, ninguém conseguiu explicar como essa mágica ocorreria. Ainda pior, ninguém se importou em perguntar sobre as desvantagens da blockchain, a não ser suas altas demandas de performance, que tornam a tecnologia inviável para um grande volume de transações (digamos, dezenas de milhares de transações por segundo, como em um sistema de pagamento.)

No fim de 2016, o burburinho se esvaiu.  Os falsos entusiastas sumiram, ao passo que os outros ficaram ainda mais sérios. É chegada a hora de dar a essa tecnologia um olhar mais sóbrio e entender o que é e quais mudanças fundamentais ela pode trazer.

O que é blockchain?

De forma simples, blockchain trata-se de uma sequência de transações. Cada bloco na sequência – ou base de dados – contém informações sobre o anterior. Não é possível alterar a informação de um bloco sem chamar atenção. Uma vez que uma transação tem seus dados confirmados pelos chamados miners (controladores do processo), os blocos ficam protegidos. Seus conteúdos são abertos, mas protegidos por um sequência de hashes. A base de dados contém informações desencriptadas e disponíveis ao público sobre todas as transações por meio de uma chave assimétrica.

Acredito que não faça sentido cobrir o tópico com ainda mais detalhes, já que você pode ler sobre em um aqui. Mas, essencialmente, por meio do blockchain podemos (teoricamente) obter uma base de dados confiável e inexpugnável. É impossível copiar as transações por meio de uma falsa confirmação de pagamento. Você não pode dizer que pagou na hora certa e a transação simplesmente demorou para ser processada. Dizem que você pode até conseguir enganar um banco, mas não a blockchain. Todas as suas ações são escritas na pedra, sem qualquer necessidade de envolvimento governamental.

Então, qual o problema? Há diversos miners prontos para blocos com hash. Todo mundo precisa de transparência e confiança. E ninguém gosta de reguladores e monopólio. Então, por que blockchain não está em todos os lugares?

Não tão rápido

Especialistas em blockchain dizem que a tecnologia pode diminuir o tempo de transações de dias para minutos. Mas a história não acaba aí: o assunto aqui é um grande número de transações, envolvendo grandes número de sujeitos e objetos. Como exemplo, se alguém fosse usar uma transação protegida por blockchain para comprar uma ilha com um canteiro de obra, as verificações levariam bem menos tempo do que usando métodos tradicionais.

Embora, tradicionalmente, dezenas de pessoas precisariam cair de cabeça em pilhas de documentos e papéis para formalizar o status da terra, da construção, uma blockchain executa tudo isso em um instante. O objeto das compras é verificado, o dinheiro repassado, e o bloco seguinte herda o nome do novo dono. (Contudo, estamos desconsiderando o trabalho atrelado a inserir a informação sobre a ilha na blockchain: se a ideia é usar blockchain para transações de imóveis, é necessário reunir toda a informação possível sobre históricos de propriedade e inseri-los na base de dados, do contrário provavelmente não funcionará).

Contudo, para transações simples, como uma transferência de dinheiro entre duas pessoas, a velocidade das transações não aumenta – Na verdade, ocorre o contrário. Blockchain foi criada para processar bitcoins, que pressupõe que cada bloco leva 10 minutos para ser criado, independentemente do poder de processamento do equipamento. Além disso, o sistema roda correções a cada 2016 blocos, o que aumenta ainda mais o tempo. Em sistemas centralizados tradicionais esse tipo de transação leva uma fração de segundo.

Outro ponto sensível é o volume considerável (e crescente) de dados com cada transação. Quando megabytes de dados são transferidos toda vez que qualquer transação mínima for realizada, qualquer sistema não irá aguentar.

Finalmente, transparência onipresente e completamente transparente não é necessária. Blockchain é uma ferramenta de alta precisão, para casos vastos e ao mesmo tempo limitados – não uma solução absoluta para  reguladores e sistemas de pagamento existentes.

Então, nada novo?

Bases de dados distribuídas é algo que ficou nos anos 80. Uma vez que computadores mais poderosos foram unidos em uma rede global e local, emergiu uma necessidade de habilitar a transferência de blocos de códigos precisos sem envolver o código central. Essa abordagem era especificamente interessante para a defesa de oficiais que quisessem transferir um pacote de A para B, estando 100% seguros da integridade e do sucesso da transferência, independente do que acontecesse no caminho fosse uma explosão nuclear.

Blockchain é apenas uma das variedades de bases de dados distribuídas que podem ser usadas para transações financeiras tanto de maneira segura quanto confidencial. Alguns realmente pensam que a bitcoin foi criada por militares que buscavam financiar rebeldes no Oriente Médio sem que ninguém descobrisse. Essa é uma das razões para que as instituições reguladoras estejam inquietas. É bem legal quando tecnologias novas emergem, mas seria desesperador descobrir, que depois de anos de uso, a figura misteriosa que criou a tecnologia tenha instalado uma saída alternativa.

Uma regulação que precisamos/e não precisamos

No modelo ideal de mundo pós-blockchain, o governo tem pouco ou nenhum papel em transações. As pessoas e organizações têm de acordar entre si que blockchain é confiável e deve ser usado em transações.

Mas o mundo real tem outras regras – alguém grande e poderoso tem que tomar a vanguarda. Por exemplo, se uma pessoa promete pagar outra em Bitcoins em troca de algum bem, e depois desiste, então quem foi enganado precisa ser capaz de ir à justiça pedir por restituição ou punição. Hoje, essas transações existem em um área cinza de legalidade. Para que transações em blockchain funcionem existem necessidades de um sistema que consiga lidar com fraudes e erros o que significa criar regras que a justiça possa usar para colocar em prática as regras.

Ai vai outro cenário. Um banco decide executar uma transação em blockchain e o faz. Vamos imaginar a reação do banco central. Se a transação tiver sido grande o suficiente isso muito provavelmente o banco perderia sua licença no mesmo dia. Isso significa, que para uma transação dessas ser legitima o governo precisa tomar uma medida ou outra.

Claro, blockchain possivelmente poderá poupar os bancos centrais de terem de administrar e validar as transações. Mas regulação e fiscalização ainda são necessárias. A adoção de blockchain não tornará o mundo perfeito.

Por que o silêncio?

Recentemente, a atenção que blockchain vinha recebendo diminuiu. Alguns bancos até decidiram deixar o consórcio R3 blockchain depois de se unir a ele fazendo um alarde durante a primavera de 2016. Isso quer dizer que a febre passou? Seria blockchain como Pokémon Go e o filtro “redes neurais”, ou seja, mortos para as mídias sociais?

Na verdade, o contrário. Os agora silenciosos eram os mais barulhentos apoiadores da tecnologia. Nesse meio tempo, algumas empresas como a IBM desenvolveram dezenas de protótipos e estão começando a trabalhar em versões beta. Essas soluções são direcionadas as aplicações descritas acima – frete, acordos de certificação, imóveis, comunicações empresariais, trocas de documentos, e mais. Nesse caso, é bem claro quais são os problemas para os quais essas soluções foram desenvolvidas e se elas possuem ou não potencial lucrativo. A empresa não precisa se gabar. O trabalho está sendo feito e temos no momento a calmaria antes da tempestade.

O que está por vir?

O Banco do Canadá e seus parceiros criaram o Projeto Jasper para testar o blockchain. Claro, poucos detalhes estão disponíveis, mas algumas descobertas curiosas já são conhecidas. Descobriu-se que o sistema não funcionaria sem um banco central, porque os padrões devem ser aplicados a tudo em sua esfera, até a blockchain. O que levanta uma pergunta delicada: quantos fiscais (miners) devem existir, e quem seria confiável o suficiente para ter acesso a esses blocos?

Além dos testes, algumas tentativas foram feitas no sentido de expor a blockchain como símbolo do caráter inovador de um produto. Contudo, ninguém nunca conseguiu transformar um cachorro em uma sereia costurando uma calda de peixe em seu rabo.

Blockchain é mais uma tecnologia chave sofrendo com o excesso de publicidade. Vimos o mesmo ocorrer com diversas outras tecnologias: nuvem, P2P e big data, para exemplificar. A primeira onda a surgir é a dos fanáticos gritando em êxtase. Céticos com afirmações sarcásticas. E aí que zap! A tecnologia se dissemina, porém, dificilmente da forma como foi divulgada.

A tecnologia está quase chegando em diversas empresas na forma de blockchains privadas. Temos um bom tempo antes de começarem a interagir entre si.

Contudo, tabeliões deviam começar a se preocupar. Um pouquinho.