Extensões de navegador: nunca confie, sempre verifique

Medidas e ferramentas sistemáticas que as organizações podem usar para se defender contra extensões mal-intencionadas de navegador.

As extensões de navegador mal-intencionadas continuam sendo um ponto cego significativo para as equipes de cibersegurança de muitas organizações. Elas se tornaram um elemento permanente no arsenal dos criminosos cibernéticos, sendo usadas para roubo de sessão e conta, espionagem, mascaramento de outras atividades criminosas, fraude em anúncios e roubo de criptomoedas. Os incidentes de alto perfil envolvendo extensões mal-intencionadas são frequentes, abrangendo desde o comprometimento da extensão de segurança Cyberhaven até a publicação em massa de extensões de infostealer.

As extensões atraem os invasores porque concedem permissões e amplo acesso a informações dentro de aplicativos SaaS e sites. Como não são aplicativos independentes, geralmente passam despercebidas pelas políticas de segurança e ferramentas de controle padrão.

A equipe de segurança de uma empresa deve abordar esse problema de forma sistemática. O gerenciamento de extensões de navegador exige combinar ferramentas de política com serviços ou utilitários focados na análise de extensões. Este tópico foi o foco da palestra de Athanasios Giatsos no Security Analyst Summit 2025.

Recursos de ameaça de extensões da Web e inovações no Manifest V3

A extensão da Web de um navegador tem amplo acesso às informações da página da Web: ela pode ler e modificar qualquer dado disponível para o usuário por meio do aplicativo da Web, incluindo registros financeiros ou médicos. As extensões também acessam dados importantes sem que o usuário perceba como cookies, armazenamento local e configurações de proxy. Isso simplifica bastante o sequestro de sessão. Às vezes, as extensões vão muito além das páginas da Web: elas podem acessar a localização do usuário, downloads do navegador, captura de tela da área de trabalho, conteúdo da área de transferência e notificações do navegador.

Na arquitetura de extensões anteriormente dominante, as extensões do Manifest V2, que funcionavam no Chrome, Edge, Opera, Vivaldi, Firefox e Safari, são praticamente indistinguíveis de aplicativos completos em termos de recursos. Elas podem executar scripts em segundo plano continuamente, manter páginas da Web invisíveis abertas, carregar e executar scripts de sites externos e comunicar-se com sites arbitrários para recuperar ou enviar dados. Para conter possíveis abusos, bem como limitar os bloqueadores de anúncios, o Google fez a transição do Chromium e do Chrome para o Manifest V3. A atualização limitou ou bloqueou muitos recursos das extensões. As extensões precisam declarar todos os sites com que interagem, não podem mais executar código de terceiros carregado dinamicamente e devem usar microsserviços de curta duração em vez de scripts persistentes em segundo plano. Embora certos ataques tenham se tornado mais difíceis com a nova arquitetura, invasores ainda conseguem adaptar o código mal-intencionado para manter a maior parte das funções necessárias, mesmo sacrificando a discrição. Portanto, contar apenas com navegadores e extensões que operam sob o Manifest V3 em uma organização simplifica o monitoramento, mas não é uma solução completa.

Além disso, o V3 não resolve o problema principal das extensões: elas geralmente são baixadas de lojas de aplicativos oficiais usando domínios legítimos do Google, da Microsoft ou da Mozilla. Suas atividades parecem ser iniciadas pelo próprio navegador, tornando extremamente difícil distinguir entre as ações executadas por uma extensão e aquelas realizadas manualmente pelo usuário.

Como surgem as extensões mal-intencionadas

Com base em vários incidentes públicos, Athanasios Giatsos destaca diversos cenários em que as extensões mal-intencionadas podem surgir:

  • O desenvolvedor original vende uma extensão legítima e popular. O comprador então a “aprimora” com código mal-intencionado para exibição de anúncios, espionagem ou outros fins nocivos. Exemplos incluem The Great Suspender e Page Ruler.
  • Os invasores comprometem a conta do desenvolvedor e publicam uma atualização com um cavalo de Troia em uma extensão, como foi o caso da Cyberhaven.
  • A extensão é projetada para ser mal-intencionada desde o início. Ela se disfarça como um utilitário relevante, como uma ferramenta falsa Salvar no Google Drive, ou imita os nomes e designs de extensões populares, como as dezenas de clones do AdBlock disponíveis.
  • Uma versão mais sofisticada desse esquema envolve publicar inicialmente a extensão em um estado limpo, em que ela executa uma função genuinamente útil. As adições mal-intencionadas são introduzidas semanas ou até meses depois, quando a extensão já alcançou popularidade suficiente. A extensão ChatGPT para o Google é um exemplo.

Em todos esses cenários, ela está amplamente disponível na Chrome Web Store e, às vezes, até anunciada. No entanto, há também um cenário de ataque direcionado em que páginas ou mensagens de phishing solicitam que as vítimas instalem uma extensão mal-intencionada que não está disponível para o público em geral.

A distribuição centralizada pela Chrome Web Store, somada às atualizações automáticas do navegador e das extensões, frequentemente leva os usuários a instalar sem perceber e sem esforço uma extensão mal-intencionada. Se uma extensão já instalada em um computador receber uma atualização mal-intencionada, ela será instalada automaticamente.

Defesas organizacionais contra extensões mal-intencionadas

Em sua palestra, Athanasios fez uma série de recomendações gerais:

  • Adotar uma política da empresa para o uso de extensões de navegador.
  • Proibir qualquer extensão que não esteja explicitamente incluída em uma lista aprovada pelos departamentos de cibersegurança e TI.
  • Fazer auditoria contínua de todas as extensões instaladas e suas versões.
  • Quando as extensões forem atualizadas, acompanhe as permissões concedidas e verifique mudanças na propriedade ou na equipe de desenvolvedores.
  • Incluir orientações claras sobre riscos e regras para o uso de extensões nos treinamentos de conscientização de segurança para todos os funcionários.

Acrescentamos algumas informações práticas e considerações específicas para essas recomendações.

Lista restrita de extensões e navegadores. Além de aplicar políticas de segurança ao navegador oficialmente aprovado da empresa, é crucial proibir a instalação de versões portáteis e de navegadores de IA populares, como o Comet,ou outras soluções não autorizadas que permitem a instalação das mesmas extensões perigosas. Ao implementar essa etapa, restrinja os privilégios de administrador local à equipe de TI e às demais pessoas cujas funções realmente exijam esse nível de acesso.

Como parte da política do navegador principal da empresa, você deve desativar o modo de desenvolvedor e proibir a instalação de extensões a partir de arquivos locais. Para o Chrome, gerencie isso por meio do Admin Console. Essas configurações também estão disponíveis por meio de Políticas de Grupo do Windows, perfis de configuração do macOS ou por meio de um arquivo de política JSON no Linux.

Atualizações gerenciadas. Implemente a fixação de versão para impedir que as atualizações de extensões permitidas sejam imediatamente instaladas em toda a empresa. As equipes de TI e de cibersegurança precisam testar regularmente as novas versões das extensões aprovadas e fixar as versões atualizadas somente depois de terem sido verificadas.

Proteção multicamadas. É obrigatória a instalação de um agente EDR em todos os dispositivos corporativos para impedir que os usuários iniciem navegadores não autorizados, mitigar os riscos de visita em sites de phishing mal-intencionados e bloquear downloads de malware. Também é necessário rastrear solicitações de DNS e tráfego de rede do navegador no nível do firewall para detecção em tempo real de comunicações com hosts suspeitos e outras anomalias.

Monitoramento contínuo. Use soluções de EDR e SIEM para coletar informações do estado do navegador das estações de trabalho dos funcionários. Isso inclui a lista de extensões em cada navegador instalado, juntamente com os arquivos de manifesto para análise de versão e permissão. Isso permite a detecção rápida de novas extensões que estão sendo instaladas ou da versão que está sendo atualizada e as alterações de permissão concedidas.

Como verificar as extensões do navegador

Para implementar os controles discutidos acima, a empresa precisa de um banco de dados interno de extensões aprovadas e proibidas. Infelizmente, as lojas de aplicativos e os próprios navegadores não oferecem mecanismos para avaliar o risco em uma escala organizacional ou para preencher automaticamente essa lista. Portanto, a equipe de cibersegurança precisa criar esse processo e a lista. Os funcionários também precisarão de um procedimento formal para enviar solicitações para adicionar extensões à lista aprovada.

A avaliação das necessidades da empresa e das alternativas disponíveis é melhor conduzida com um representante da respectiva unidade de negócios. No entanto, a avaliação de risco continua sendo de inteira responsabilidade da equipe de segurança. Não é necessário baixar extensões manualmente e ver suas referências em diferentes repositórios de extensões. Essa tarefa pode ser realizada por várias ferramentas, como utilitários de código aberto, serviços on-line gratuitos e plataformas comerciais.

Serviços como Spin.AI e Koidex (anteriormente ExtensionTotal) podem ser usados para avaliar o risco geral. Ambos mantêm um banco de dados de extensões populares, de modo que a avaliação geralmente seja instantânea. Eles usam LLMs para gerar um breve resumo das propriedades da extensão, mas também fornecem uma análise detalhada, incluindo as permissões necessárias, o perfil do desenvolvedor e o histórico de versões, classificações e downloads.

Para analisar os dados principais das extensões, você também pode usar o Chrome-Stats. Embora tenha sido projetado principalmente para desenvolvedores de extensões, esse serviço exibe classificações, avaliações e outros dados da loja. Ele permite que usuários baixem a versão atual e versões anteriores de uma extensão, facilitando a investigação de incidentes.

Você pode utilizar ferramentas, como o CRX Viewer, para uma análise mais detalhada das extensões suspeitas ou críticas para a operação. Essa ferramenta permite que os analistas examinem os componentes internos da extensão, filtrando e exibindo o conteúdo de forma prática, com ênfase no código HTML e JavaScript.

Dicas

O Infostealer entrou no chat

Uma nova onda de ataques ClickFix que dissemina um infostealer para macOS está publicando guias de usuário maliciosos no site oficial do ChatGPT, explorando o recurso de compartilhamento de conversas do chatbot.