No mês de estreia do filme, especialistas mostram que o hábito infantil de contar segredos aos brinquedos migrou para os chatbots de IA, o que pode deixar dados pessoais expostos
O uso de Inteligência Artificial por crianças saltou do sexto para o terceiro lugar nas buscas do Google, impulsionado por plataformas como ChatGPT, Gemini, DeepSeek, Claude e Microsoft Copilot, segundo levantamento da Kaspersky. No entanto, a forte presença da IA na rotina da Geração Alpha (nascidos entre 2010 e 2025) acende um alerta sobre privacidade. Na franquia Toy Story, o quarto é o cenário clássico de confidências entre as crianças e seus brinquedos. Agora, o quinto filme da saga mostra a imersão da personagem Bonnie no tablet, simbolizando como esses dispositivos viraram os novos "amigos secretos" dos pequenos. O problema é que, ao compartilhar medos, rotinas e dados pessoais com os chatbots, os menores geram uma exposição silenciosa de informações familiares, já que esses sistemas armazenam todas as conversas. Veja como se proteger.
Diferentemente dos brinquedos físicos, que mantêm os segredos protegidos dentro de quatro paredes, os assistentes virtuais utilizam cada dado digitado para aprimorar seus algoritmos. O estudo da Kaspersky mostra que a busca por IA divide a atenção do público infantil com aplicativos de mensagens e redes sociais, como Instagram, TikTok, WhatsApp e Telegram (líderes com 19,3%), e com videogames em plataformas como Roblox, Poki e CrazyGames (16%). Além disso, o YouTube segue como o ambiente digital mais acessado por eles (29%), impulsionado por canais de animação conhecidos por dramatizar desabafos e dilemas pessoais, como o My Story Animated (MSA). Ao interagir com tecnologias que simulam essa linguagem acolhedora, os pequenos criam um forte apego emocional com as máquinas e revelam segredos sem compreender que estão alimentando bancos de dados comerciais.
Essa preferência pelas ferramentas inteligentes reflete uma clara mudança de hábito: os menores descobriram que a IA é como um atalho e responde a dúvidas de forma muito mais rápida do que as pesquisas tradicionais na web. Em vez de navegar por páginas de resultados no Google, as crianças utilizam os chatbots para obter respostas diretas e imediatas. Essa busca por conveniência torna o uso dessas tecnologias diário e contínuo, multiplicando o volume de interações e, consequentemente, a quantidade de dados confidenciais que as famílias expõem de forma silenciosa na internet.
"Em Toy Story, os brinquedos ganham vida para proteger as crianças. No mundo digital real, quem precisa proteger os filhos desses 'brinquedos digitais' são os pais. A IA é fantástica para o aprendizado, mas os chatbots não são diários trancados à chave. Cada segredo, rotina ou desabafo digitado ali é enviado diretamente para servidores externos e serve como dado de treinamento para os modelos de linguagem (LLMs) das empresas de tecnologia. Tudo o que é inserido nos prompts deixa de ser privado, podendo expor a família. Por isso, a mediação dos pais e a configuração ativa de privacidade são os únicos escudos contra essa exposição precoce", pondera Fabio Assolini, pesquisador líder de segurança da Kaspersky.
Para evitar que a cumplicidade com os novos "brinquedos de IA" se transforme em uma brecha de segurança para as famílias, a Kaspersky mapeou os principais riscos desse comportamento e preparou diretrizes de proteção:
Os segredos que devem ficar fora dos prompts de IA:
- Vulnerabilidades e sentimentos: Devido ao tom acolhedor das IAs, crianças costumam relatar brigas em casa, medos ou inseguranças. Esses dados de comportamento emocional podem ser usados para traçar perfis psicológicos ou comerciais dos menores no futuro.
- Rotinas de segurança física: Detalhes sobre o horário em que os pais chegam do trabalho, nomes de professores, a escola onde estudam ou fotos com o uniforme escolar jamais devem ser enviados aos chats ou geradores de imagem de IA.
- Dados de identificação da família: Informações que parecem inofensivas para uma criança, como o modelo do carro dos pais, os nomes de familiares e números de telefone, facilitam ataques futuros de engenharia social e golpes direcionados.
Dicas da Kaspersky para ajudar os pais a orientar os filhos em uma navegação segura na era da IA:
- Crie barreiras técnicas de privacidade: Pais devem acessar as configurações de plataformas como ChatGPT e Gemini e desativar o "histórico de chats" e a opção de "treinamento do modelo". Isso impede que as conversas das crianças sejam arquivadas nos servidores centrais dessas tecnologias.
- Adote perfis familiares com controle parental: Os menores não devem ter contas próprias e isoladas em sistemas de IA. O uso de telas e dispositivos deve ocorrer em áreas comuns da casa e sob a supervisão de um adulto. Para dar mais segurança a essa rotina sem invadir a privacidade da criança, os pais podem contar com ferramentas de controle parental como o Kaspersky Safe Kids, que permite gerenciar o tempo de tela e monitorar os acessos de forma amigável e segura.
- Desmistifique a tecnologia: cabe aos pais explicar, de forma simples e didática, a diferença entre um brinquedo e um programa de computador. Mostrar à criança que, embora a Inteligência Artificial pareça conversar como um amigo, ela é, na verdade, uma tecnologia que processa dados e interage de forma automatizada, incentivando um uso mais consciente e sem confidências de risco.
- Introduza fundamentos de cibersegurança: Para apresentar os conceitos de privacidade e segurança digital desde cedo aos filhos, os pais podem baixar gratuitamente o e-book Kaspersky Cybersecurity Alphabet. A obra explica de forma lúdica e divertida, por meio do alfabeto, regras essenciais de higiene cibernética, ajudando as crianças a entenderem de maneira simples por que devem manter suas informações pessoais seguras e longe de estranhos ou robôs.