Hoje, pode parecer que há uma câmera nos observando em cada canto: na campainha com vídeo na entrada, na webcam de um notebook no escritório de casa, na babá eletrônica IP no quarto das crianças, na smart TV com câmera e microfone no quarto, no robô aspirador com câmera de navegação… Até um alimentador inteligente para gatos pode estar espionando você! E qualquer uma dessas câmeras pode facilmente se transformar em uma ferramenta de extorsão, chantagem ou curiosidade mal-intencionada.
Nem é preciso procurar muito para encontrar exemplos. Coreia do Sul, final de 2025: não foi apenas um dispositivo, mas 120.000 câmeras IP foram invadidas. Os criminosos vendiam, por assinatura em chats privados, imagens íntimas e gravações do cotidiano das pessoas.
Neste artigo, analisamos exatamente de onde vem a ameaça e apresentamos cinco regras que podem reduzir bastante as chances de você virar a estrela do show de um voyeur.
Casos reais de vigilância
Pornografia de hotel por assinatura
Infelizmente, relatos sobre câmeras em miniatura encontradas em quartos de hotel e apartamentos alugados se tornaram quase rotineiros. Tecnicamente, elas pertencem a uma categoria diferente de dispositivos: “câmeras espiãs” disfarçadas de tomadas, detectores de fumaça ou despertadores. Mais adiante, explicaremos como detectá-las.
Os criminosos não se limitam a publicar imagens de câmeras espiãs. Também fazem transmissões ao vivo. O acesso a vídeos íntimos, naturalmente, não é gratuito. Em algumas regiões, criminosos montaram uma infraestrutura em torno das câmeras espiãs: uns instalam os dispositivos, outros processam as imagens e outros vendem o acesso pela dark web ou por aplicativos de mensagens. Em geral, as vítimas descobrem que havia uma câmera oculta no quarto do hotel por acaso, depois de se depararem com vídeos de si mesmas em sites pornográficos.
Caça a motoristas
Outro vetor de ataque comum é a invasão de câmeras veiculares conectadas à Internet. Esses dispositivos são alvos atraentes para invasores: a segurança é fraca, e as imagens mostram claramente placas de veículos, sinalização viária e endereços em prédios. As gravações também contêm metadados detalhados, incluindo datas exatas, coordenadas de GPS e outras informações.
Isso pode permitir que criminosos identifiquem as rotas habituais da vítima, descubram onde o carro fica estacionado ou até escutem conversas com passageiros. As informações podem ser suficientes para uma vigilância completa, o roubo do veículo ou até chantagem, caso a câmera grave conversas e imagens dentro do carro.
Stalking
Nem todas as imagens roubadas de câmeras resultam de ataques de cibercriminosos profissionais em busca de lucro. Às vezes, stalkers invadem webcams para espionar pessoas específicas, muitas vezes alguém que conhecem. Por exemplo, em 2025 veio à tona um caso em que um homem vinha espionando colegas de trabalho havia anos por meio das câmeras IP instaladas nas casas delas. Todas as vítimas eram mulheres, e não faziam ideia de que estavam sendo observadas.
Em outro caso, um homem monitorava a ex-esposa e a filha por meio de um sistema de interfone e câmeras IP. Ele nem tentava esconder que espionava a própria família e chegou a enviar à filha capturas de tela da webcam. Como consequência, ela acabou tendo que se mudar.
Por que isso acontece?
Negligância com regras básicas de cibersegurança
Esse é provavelmente o principal motivo pelo qual câmeras IP são invadidas. A maioria dos usuários não altera senhas padrão de roteadores, dispositivos inteligentes e aplicativos conectados a eles. Essas senhas são praticamente de conhecimento público. Muitas vezes, são usadas combinações simples, como “admin/admin” ou “root/1234”, que todos conhecem ou que podem ser adivinhadas em segundos sem um algoritmo sofisticado. Foi exatamente isso que permitiu aos invasores comprometer 120.000 câmeras na Coreia do Sul.
Fabricantes de câmeras irresponsáveis
Embora os fabricantes garantam que os dados das câmeras sejam armazenados apenas localmente, na prática, costuma ser bem diferente. Por exemplo, em 2022, pesquisadores descobriram que uma linha popular de câmeras de vídeo enviava capturas de imagem ao servidor do fabricante sempre que uma pessoa aparecia no quadro. E mais: o acesso remoto às gravações de todas as câmeras ficava disponível por URLs previsíveis, o que tornava essas URLs relativamente fáceis de reproduzir ou adivinhar.
Ao mesmo tempo, a empresa afirmava que suas câmeras usavam criptografia de ponta a ponta, armazenavam gravações apenas no dispositivo e não enviavam dados a servidores externos. Por sinal, a suposta “criptografia segura” era implementada com uma chave fixa idêntica para todos os usuários. E a própria chave podia ser facilmente encontrada no código-fonte publicado pelo fabricante.
Em resumo, se um dispositivo tem lente e Wi-Fi, considere a possibilidade de que, mais cedo ou mais tarde, uma falha grave de segurança seja descoberta nele.
Mecanismos de busca para dispositivos vulneráveis estão se tornando cada vez mais populares
Para acessar uma câmera, muitas vezes o invasor só precisa saber o endereço IP dela e testar algumas senhas comuns. Existem mecanismos de busca que indexam dispositivos e suas portas abertas, em vez de sites: webcams, roteadores, controladores industriais, equipamentos médicos e muito mais.
Se uma câmera IP não exigir nome de usuário e senha ou estiver “protegida” pelas credenciais padrão “admin/admin”, ela pode ser facilmente descoberta e adicionada ao banco de dados de um serviço de OSINT. Jornalistas e pesquisadores já usaram esses serviços para encontrar câmeras acessíveis ao público em quartos de crianças, escritórios, salas cirúrgicas de hospitais, bancos e lojas.
Então, o que fazer?
O que é possível fazer em casa ou em um pequeno escritório sem uma equipe dedicada à segurança? Estas cinco recomendações simples podem ajudar.
1. Pesquise sobre o fabricante
Ao escolher um modelo de câmera IP, verifique se câmeras daquele fabricante já foram invadidas. Por exemplo, pesquise por “invasão de câmera IP nome do fabricante“. Depois, acesse a seção de Suporte do fabricante e confira a data da atualização de firmware mais recente para o modelo considerado e para modelos mais antigos.
Se o firmware não tiver sido atualizado nos últimos seis meses ou se as atualizações forem lançadas de forma irregular, considere escolher outro modelo. A maioria das câmeras usa versões embarcadas especializadas do Linux, e mais de 2.300 vulnerabilidades foram registradas no kernel do Linux nos primeiros seis meses de 2026. Sem atualizações regulares de firmware, é quase certo que, mais cedo ou mais tarde, as câmeras de um fabricante apresentarão uma falha de segurança.
Considere modelos de grandes fabricantes para evitar uma coleção inteira de vulnerabilidades com praticamente nenhuma chance de que elas sejam corrigidas. Câmeras baratas de empresas pouco conhecidas, com recursos limitados e proteção fraca, podem acabar saindo caras.
2. Desative recursos desnecessários
Quanto menos serviços de armazenamento em nuvem de terceiros estiverem envolvidos no sistema de vigilância, melhor. Ao escolher uma câmera, procure um slot para cartão microSD ou compatibilidade com dispositivo de armazenamento conectado à rede (NAS), para que todas as gravações possam ser armazenadas localmente.
O ideal é que a câmera consiga funcionar na rede local, sem transmitir dados para a nuvem ou para os servidores do fabricante, com visualização pela LAN ou por meio de uma conexão segura com a rede doméstica ou do escritório.
Ao comprar outros dispositivos para casa inteligente, avalie se você realmente precisa de uma câmera integrada à smart TV, caixa de som inteligente, robô aspirador ou alimentador automático para animais. Cada um desses dispositivos amplia a superfície de ataque em potencial.
Depois de comprar uma câmera IP, revise as configurações, geralmente disponíveis no aplicativo do fabricante ou pela interface Web da câmera, e desative tudo o que não for necessário.
- Preste atenção aos recursos relacionados ao reconhecimento de pessoas, inteligência artificial, permissões do sistema, descoberta de outros dispositivos na rede e armazenamento em nuvem. Se você não usa um recurso, pode desativá-lo.
- Nas configurações de rede, confirme que o UPnP (Universal Plug and Play) está desativado ou sequer disponível como opção. O UPnP pode permitir que a câmera se torne acessível a outros dispositivos pela Internet.
- Verifique se o acesso P2P à webcam está desativado ou indisponível, para que a câmera não se conecte a servidores externos nem possa ser acessada pela Internet sem seu controle direto.
- Crie o hábito de verificar quem está conectado à sua conta e quem ainda tem acesso às suas gravações. Se você concedeu acesso à webcam a um amigo para ficar de olho no seu cachorro durante uma viagem, lembre-se de revogar depois os acessos ou encerrar as sessões desnecessárias. E, se você terminou um relacionamento recentemente, verifique com atenção especial se a pessoa com quem se relacionava ainda tem acesso. Para saber mais, consulte Higiene digital após uma separação: o que verificar e desativar.
3. Altere as configurações padrão
As senhas padrão de fábrica são conhecidas pelos invasores há anos. Se você ainda não alterou o nome de usuário e a senha do roteador ou da câmera IP, um invasor pode conseguir acesso em questão de segundos.
- Substitua o nome de usuário e a senha padrão de fábrica do roteador por credenciais exclusivas e longas. Isso pode ser feito pela interface Web do roteador. Explicamos abaixo como acessá-la. Para gerar e armazenar senhas fortes e exclusivas, recomendamos usar Kaspersky Password Manager.
- Se a câmera estiver vinculada a uma conta em um site ou aplicativo, use também uma senha forte e ative a autenticação de dois fatores ou a autenticação por chave de acesso sempre que possível. Os tokens de 2FA e as chaves de acesso também podem ser armazenados no Kaspersky Password Manager e sincronizados em todos os seus dispositivos.
- Atualize o firmware do roteador e da câmera IP para as versões mais recentes, mesmo que você tenha acabado de comprar os dispositivos, e crie o hábito de fazer atualizações regularmente. Campanhas de invasão de câmeras IP em grande escala muitas vezes exploram vulnerabilidades conhecidas há muito tempo, que só podem ser corrigidas com a instalação de atualizações.
4. Coloque todas as câmeras e dispositivos inteligentes em uma rede Wi-Fi separada
Recomendamos segmentar o Wi-Fi doméstico em sub-redes separadas. Você provavelmente já viu essa configuração em cafés, que costumam ter uma rede Wi-Fi para a equipe e outra para visitantes.
O ideal é colocar todas as câmeras IP e outros dispositivos de casa inteligente em uma rede Wi-Fi separada e totalmente isolada de notebooks, celulares e outros dispositivos de trabalho. Melhor ainda, as câmeras IP devem ficar isoladas de todos os demais dispositivos em uma rede Wi-Fi dedicada exclusivamente a elas.
A maioria dos roteadores modernos permite criar pelo menos duas redes Wi-Fi, uma rede principal e uma rede para visitantes. Modelos mais avançados podem oferecer ainda mais opções. Assim, mesmo que a câmera seja invadida, o invasor não conseguirá chegar aos outros dispositivos nem acessar arquivos confidenciais.
Como abrir a interface Web do roteador
- Digite o endereço IP do roteador na barra de endereços do navegador. Normalmente, ele está impresso em uma etiqueta na parte inferior do roteador. Entre os endereços IP comuns para roteadores domésticos estão 168.0.1, 192.168.1.1 e 10.0.0.1.
- Na página que abrir, faça login. A maioria dos roteadores tem um nome de usuário e uma senha padrão, que normalmente também estão impressos na mesma etiqueta. Alguns roteadores podem solicitar a criação de um nome de usuário e de uma senha. Recomendamos escolher uma senha forte e armazená-la no Kaspersky Password Manager. As senhas padrão de fábrica são conhecidas pelos invasores há muito tempo e, se você não alterar a senha do roteador, eles podem entrar facilmente na sua rede doméstica.
- Abra as configurações e procure seções relacionadas à segmentação da rede Wi-Fi ou à criação de sub-redes ou redes para visitantes.
Para obter instruções detalhadas de configuração, consulte o manual do roteador ou a seção de suporte do site do fabricante. Para mais dicas sobre como proteger sua casa inteligente, consulte nossa postagem Como proteger sua casa smart.
5. Aprenda a detectar câmeras ocultas, em casa e durante uma viagem
Nosso último conjunto de recomendações não trata da configuração da câmera em si, mas de boas práticas de segurança.
Crie o hábito de verificar a lista de clientes do roteador. Se você vir um dispositivo desconhecido com um nome estranho ou endereço MAC, investigue o que é e por que está conectado à sua rede doméstica. Nossa solução de segurança inclui um componente dedicado do Smart Home Monitor. Esse recurso pode alertar quando um novo dispositivo se conecta à rede doméstica com ou sem fio, fornecer recomendações simples para melhorar a segurança da rede e identificar senhas fracas do roteador e criptografia insegura.
Durante viagens, recomendamos verificar se há dispositivos de gravação ocultos em quartos de hotel e imóveis alugados:
- inspecione locais que ofereçam um bom campo de visão do ambiente, como grades de ventilação, detectores de fumaça, tomadas e objetos decorativos;
- no escuro, use o smartphone como detector óptico improvisado: ligue a lanterna e a câmera, examine lentamente o ambiente e procure reflexos característicos produzidos por lentes de câmeras;
- use a câmera frontal para procurar fontes de luz infravermelha invisíveis ao olho humano. Isso pode ajudar a identificar a iluminação IR usada para “visão noturna”.
Para conhecer outros métodos práticos de encontrar câmeras espiãs, consulte nosso post Quatro maneiras de encontrar câmeras espiãs.
O que mais você deve saber sobre vigilância e câmeras:
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